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1º Episódio: A nova cracolândia de Santos

Assunto: Crack: o fim da linha

A nova cracolândia de Santos
Início de noite em Santos. O clima é de aparente tranquilidade nas ruas do José Menino e do Marapé. Mas não é preciso andar muito para perceber que o perigo está próximo. As luzes que piscam no meio da escuridão são cachimbos de crack. Para evitar que eles se apaguem, usuários improvisam uma proteção contra o vento usando um guarda-chuva.

"Todo mundo sabe que ali é uma cracolândia, que ali ninguém passa, que ali é um território proibido para alguns. E é triste", diz uma moradora do José Menino que não quer se identificar.

A cracolândia citada pela mulher fica na linha do trem desativada, que divide os dois bairros. Diariamente ela assiste a tudo da janela de casa e diz que o consumo da droga não para. "É comum a qualquer hora do dia, da noite, madrugada".

Durante o dia fica mais fácil entender como os viciados, aos poucos, estão tomando conta do lugar. Eles surgem de todas as partes, sozinhos ou em grupos. E fumam crack sem ser incomodados. O tráfico também é facilmente flagrado. Com quatro reais, o usuário compra duas pequenas pedras e, em seguida, acende o cachimbo. Equipados com rádio, olheiros monitoram a movimentação.

A nova cracolândia fica a 200 metros da praia do José Menino. O que hoje é uma triste realidade no local, teve início há quinze anos, no centro histórico de Santos. Embaixo de um viaduto, no Valongo, surgiram os primeiros viciados. A urbanização, no fim dos anos noventa, espantou os usuários, mas não solucionou o problema, que começava a assustar especialistas e a ganhar destaque na imprensa.

Em junho de 1994, a TV Tribuna mostrou que "profissionais que trabalham com a recuperação de drogados em Santos estão apavorados com a ação descarada de traficantes na cidade. Eles dizem que de 90 dias para cá aumentou e muito a distribuição de uma droga ainda mais destruidora que a cocaína: o crack".

"Ele veio como experiência de experimentação, veio chegando, veio vindo. Na medida em que a demanda foi crescendo, a oferta foi se sofisticando. A disseminação foi um rastilho de pólvora. Como qualquer incêndio, ele começou como uma faísca e acabou se tornando incontrolável", diz o consultor de segurança pública Alberto Corazza.

Por ser uma droga que causa dependência rapidamente, é dificil manter o vício. Em pouco tempo, um usuário pode virar um criminoso.

"Uma pessoa que começa a usar crack tende a roubar, a violar leis. Muitas pessoas que consomem outros tipos de drogas não toleram o craqueiro no seu meio, porque ele tem uma conduta mais violenta, mais agressiva", explica a psicóloga e especialista em crack, Luciana Vilarinho.

"São como verdadeiros zumbis, desprovidos de alma. Andam por aí ao léu roubando tudo o que encontram pela frente. Máquina de filmar, CD, DVD, o que você pode imaginar", afirma o presidente da Sociedade de Melhoramentos do José Menino, Marcos Antônio Pereira.

Quem não tem coragem de roubar, faz como um garoto de quinze anos. Ele pede moedas para comprar biscoitos. Com pena, muitos ajudam. Mas o dinheiro tem outro destino. O adolescente é flagrado na cracolândia. Nas mãos, em vez do biscoito, um cachimbo de crack. E ele não é o único.

Num semáforo próximo, um homem pede dinheiro para almoçar. Horas depois, ele é flagrado na linha do trem. Entra no túnel e acende o cachimbo.

Um viciado, que tenta se livrar do crack, não aconselha ninguém a dar esmolas. "Você vê a quantidade de gente que hoje tem pedindo esmola em cada esquina. Então, você pensa que é pra comprar alimento. Não é. O cara que fuma crack não come. O cara que fuma crack, ele fuma crack, não faz mais nada, ele só fuma crack. Ele acorda pensando no crack e vai dormir pensando como ele vai conseguir dinheiro no dia seguinte pra conseguir usar", afirma o viciado, que não quer se identificar. "Eles se utilizam da piedade das pessoas, que se comovem com a situação deles na rua, pra pedir dinheiro, pra pedir esmola".

"É como se fosse um mundo paralelo ao meu, que a gente acha que é uma ficção, não é uma verdade. É um filme que tá acontecendo do teu lado", lamenta uma vizinha da nova cracolândia.

Postado por: TV Tribuna.com - 11/05/2009

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2º Episódio: O crack na classe média

Assunto: Crack: o fim da linha

O crack na classe média
Os viciados em crack ficam olhando para o chão, como se tivessem perdido algo. A todo momento, acham que estão sendo perseguidos. Tudo ilusão. Efeito do crack.

"Essa coisa da paranóia, da persecutoriedade, eles acham que um pedaço da pedra pode ter caído enquanto estavam pipando (fumando). Daí a necessidade de estar sempre cavocando. Se você olhar a mão de um usuário de crack, ela é encardida, é preta embaixo da unha, a ponta dos dedos", explica a psicóloga e especialista em crack, Luciana Vilarinho.

A dependência, muitas vezes, leva o usuário a praticar pequenos furtos dentro de casa para sustentar o vício. Eletrodomésticos viram moeda de troca. Imagens registradas na nova cracolândia, em Santos, mostram um jovem carregando um circulador de ar. Minutos depois, ele aparece fumando, já sem o aparelho.

"É comum a gente presenciar pessoas que vêm à linha do trem de terno e gravata. Usam a droga ali e depois devem ir pro trabalho. Adolescentes que a gente vê de classe média, de bicicleta, de prancha de surfe", conta uma vizinha da cracolândia, que não quer se identificar.

Na década de noventa, o consumo do crack era restrito aos mais pobres. Nos últimos anos, as pedras vêm seduzindo usuários com maior poder de compra.

"Não é mais como surgiu, uma droga de baixa renda, de população de rua. Hoje, atinge as classe liberais. Estamos com consultórios particulares recebendo médicos, dentistas, advogados, pessoas de famílias aparentemente estruturadas", diz o psicólogo Eustázio Pereira.

Um rapaz de família rica, que nunca passou por problemas financeiros e conquistou dois diplomas universitários acabou ficando viciado em crack.

"Eu comecei com 14 anos usando benzina, cola de sapateiro, passei pra maconha, conheci a cocaína e depois conheci a destruição que é o crack. Esse é o inferno. Esse é o verdadeiro inferno", conta, sem se identificar.

Com o aumento da procura, cresceu também a oferta. Para chegar àqueles com maior poder aquisitivo, a droga teve que que descer os morros, sair dos becos, das favelas e ampliar seu alcance.

"Você anda em Santos, você tem uma boca (ponto de venda de drogas) no canal 1, uma boca no canal 2, uma boca no canal 3, uma boca no canal 4, uma boca no canal 5, no 6 e no 7. São os lugares onde estão os jovens. E são essas pessoas que os traficantes querem como seus clientes", conta um viciado de classe média.

Um levantamento feito pela Universidade Federal de São Paulo mostra que o consumo de crack subiu 42% nos últimos três anos. Crescimento bem superior ao de outras drogas no mesmo período. Popularização diretamente associada, segundo especialistas, à combinação preço baixo e forte poder de dependência. O crack custa dez vezes menos que a cocaína e vicia muito mais rápido.

Do cachimbo ao cérebro são apenas dez segundos. O prazer é imediato. O coração acelera. As pupilas se dilatam e o aparelho digestivo é afetado, sendo comuns náuseas e perda de apetite. Quando inalado com álcool, o crack produz no fígado uma substância potencialmente letal que pode provocar paradas cardíacas.

"O crack faz com que exista maior quantidade de infartos, maior quantidade de acidentes vasculares cerebrais, derrame, arrebentam artérias do cérebro de calibre maior, e a pessoa tem a chamada hemorragia cerebral, em que vai ter ou um dos lados paralisado, dependendo onde for a ruptura da artéria, ou dificuldade de falar, de se comunicar", explica o psquiatra Omar Souto Pinheiro.

Em cinco minutos, a euforia dá lugar à depressão e à angústia por mais uma pedra.

"Eu já cheguei a ficar três dias e três noites no uso de crack. E só parei mesmo porque o corpo não tava aguentando mais, tava pra desmaiar e então eu apaguei", diz um viciado que hoje está em tratamento.

Um drama acompanhado de perto pela família.

"Eu cheguei até a entrar em luta corporal com ele, quebrei até um dedo da mão com isso. Quando ele punha a mão no dinheiro, ele consumia com tudo", conta o pai de outro viciado.

Lidar com um filho viciado exige perseverança e um amor incondicional.

"A caminhada é longa? É longa. Os pais não têm que desisitir. Eles têm que ter a família do lado, acompanhando sempre. É como se fosse um adolescente, uma criança indo pra escola, você tem que acompanhar em todos os momentos. O que você puder fazer, faça pelo seu filho. Porque eu lutei muito pra não perder meu filho pras drogas", desabafa a mãe de um dependente.

Postado por: TV Tribuna.com - 11/05/2009

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3º Episódio: As mulheres do crack

Assunto: Crack: o fim da linha

As mulheres do crack
"Vou casar, tá sendo maravilhoso, o que passou de errado na minha vida ficou pra trás".

O depoimento confiante, de quem planeja um futuro feliz, na verdade esconde um passado recente que Ana, como vamos chamá-la nessa reportagem, nunca vai conseguir esquecer.

"Eu abandonei minhas filhas, deixei com a minha mãe pra viver para o crack. Minha mãe levava minhas filhas pra me ver embaixo de um viaduto. Durante 15 anos, não consegui me libertar de jeito nenhum", conta.

Uma prisão que, além de afastar definitivamente Ana do convívio com a família, afetava a sua auto-estima.
"A vaidade a gente perde muito. Não quer se cuidar, não liga pra tomar banho, pra arrumar o cabelo, fazer a unha. Se andar descalça tanto faz".

O envolvimento de mulheres com o crack vem crescendo a cada dia. Mas o que preocupa especialistas e autoridades de saúde ainda mais são os meios usados para se conseguir a droga. Sem dinheiro para sustentar o vício, muitas colocam à venda aquilo que têm de mais valioso: o corpo.

"Já quiseram trocar droga por sexo. Eu nunca aceitei", diz Ana.

"A questão da prostituição realmente acaba acontecendo e muitas vezes você encontra pessoas se prostituindo pra obter a droga como forma de recompensa. Já nem consegue fazer a troca de sexo por dinheiro, já troca direto pela própria droga", diz a psicóloga especialista em crack, Luciana Vilarinho.

Prática que já faz parte do cotidiano de quem mora na região da cracolândia, em Santos. "É muito comum assistir cenas do pessoal fazendo sexo. É meio dantesco. Era um casal fazendo sexo ao lado dos companheiros de uso de drogas", relata uma vizinha da cracolândia.

"Recentemente, eu fui abordado por uma menina de 14, 15 anos, oferecendo sexo a cinco reais. Eu tenho filhos, filha. E isso dói na alma de um pai de família, das pessoas de bem", conta o presidente da Sociedade de Melhoramentos do José Menino, Marcos Antonio Pereira.

A diferença entre uma garota de programa e uma usuária de crack, que se prostitui em troca da droga, está na prevenção. Ou na falta dela. Uma pesquisa recente mostra que as profissionais do sexo têm menos parceiros e não costumam abrir mão do uso de preservativos. Já as viciadas ignoram o risco da aids e fazem programas a qualquer hora, em qualquer lugar, sem os mínimos cuidados.

"A mulher usuária de crack, a criança muitas vezes, a pré-adolescente acaba fazendo o sexo em busca do prazer rápido do crack. Por 5 reais, por 10 reais", diz a psicóloga Sandra Konstantinitis.

Maria do Socorro administra o Recanto Renascer, a única comunidade terapêutica da região especializada no público feminino. Metade das mulheres que pedem ajuda está viciada em crack.

"Família, marido, filhos, mãe, pai, elas deixam tudo pra trás por causa do crack. Não importa se a criança tem 10 anos ou 24 horas de nascida. Elas deixam pra trás por causa do crack", diz Maria do Socorro.

Durante o tratamento, elas aprendem a costurar, bordar e fazer artesanato. Tarefas comuns, mas que muitas não tiveram tempo para aprender. Tempo que Ana, agora, quer recuperar. Depois de nove meses de internação, ela já dá sinais de que reencontrou seu caminho, sua dignidade, seu amor próprio.

"Tô com 46 anos e não me arrependo de agora querer viver. Quero arrumar meu cabelo, tomar meu banho, me alimentar, arrumar minha unha. Agora, eu voltei a ser mulher".

Postado por: TV Tribuna.com - 11/05/2009

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4º Episódio: Crack x Poder público

Assunto: Crack: o fim da linha

Crack x Poder público
Para quem combate o crack, a luz no fim do túnel não é esperança. É sinônimo de derrota.

É evidente que a oferta é muito maior que o trabalho dos técnicos. Oferecem muito mais drogas nas ruas do que nós estamos tratando", diz o psiquiatra Omar Souto Pinheiro.

E os pacientes estão em número cada vez maior. São tantos que o questionamento é inevitável: vivemos hoje uma epidemia de crack?

"Não, não acredito. Não chega a tanto. Existe o aumento do uso, mas não chegou a ponto epidêmico", afirma a chefe da Seção Núcleo de Atendimento ao Tóxico-dependente (Senat), Rosane Magalhães.

"A epidemia de crack começou na década de 90 e não terminou até agora. Ela vem se repetindo, se espalhando", diz Luciana Vilarinho, psicóloga especialista em crack e em programas de redução de danos.

Em santos, é impossível dimensionar hoje o estrago causado pela droga. Prefeitura, universidades e organizações não-governamentais não possuem estatísticas seguras e atualizadas sobre o consumo de crack na cidade. Uma falha que evidencia o descaso na elaboração de políticas públicas de combate e prevenção.

"Esses órgãos precisariam ter um estudo mais avançado, estar mais organizados para poder tratar das pessoas com dependência", avalia o presidente do Conselho Municipal Antidrogas (Comad), Marcelo Souza do Nascimento.

Numa casa, no bairro da Pompéia, funciona o Senat. O local é a única opção de tratamento oferecida pela Prefeitura. No ano passado, foram atendidas quase 2.700 pessoas com problemas de alcoolismo, tabagismo e drogas ilícitas. Quantas já tinham experimentado crack? Ninguém sabe dizer.

"Eles estão inseridos no meu banco de dados como usuários de cocaína, por conta do crack ser um subproduto da cocaína. Nós estamos até pensando em dividir crack da cocaína porque são duas drogas absolutamente distintas no perfil, nas complicações clínicas e nas complicações psíquicas", afirma a chefe do Senat.

"Há quatro anos, o prefeito João Paulo Papa criou um segundo Senat, que funcionaria no Hospital da Zona Noroeste. Ideia que ainda não saiu do papel.

"O Senat está muito pequeno para o tamanho da população, para o tamanho dos dependetes químicos que temos na cidade. A estrutura é muito pequena. Nós precisamos sim desse Senat 2, do Senat Centro, e a Secretaria de Saúde está tendo alguma dificuldade pra entregar isso pra população", critica o presidente do Comad.

"Está previsto para se criar um novo Senat na Zona Noroeste, e vai acontecer. Nós estamos conseguindo atender, por incrível que pareça. Mas fica pesado. Precisa realmente ter outra unidade", admite a chefe do Senat.

Mas a luta contra o crack requer, além de estrutura, trabalho de campo. É preciso estar perto dos viciados. Seguindo esta linha, em 2001, um projeto ligado à Secretaria de Saúde distribuía filtros para usuários fumarem a droga em cachimbos. A estratégia polêmica visava melhorar a qualidade de vida dos dependentes. O programa foi extinto.

"A redução de danos é a única saída que a gente encontra pra todos aqueles usuários que não conseguem se adaptar ao sistema convencional de tratamento. A gente tem muito pouco a oferecer pra usuário de qualquer droga, de crack é mais complicado ainda. A redução de danos vai até o usuário, não espera o usuário chegar no serviço", explica Luciana Vilarinho.

"Eu não sou contra. Só acho que você pode reduzir o dano de quem quer usar, desde que você também atenda quem quer parar de usar. É muito mais conveniente você diminuir a demanda do que reduzir os danos dessa demanda. Você tem que investir muito mais pra evitar a experiência do que pra consertar uma experiência que foi transtornada", afirma o consultor em segurança pública, Alberto Corazza.

A tarefa que o poder público tem pela frente é árdua e passa pela dificuldade no tratamento. No Brasil, apenas um em cada dez dependentes químicos consegue se curar.

"O índice mundial de recuperação é de 30%. A gente não consegue atingir esse índice mundial. Mas conseguimos 10%, consideramos um grande avanço, embora a sociedade pense que seja pouco, é um grande avanço", diz Rosane, chefe do Senat.

"O problema do dependente de droga não é só um problema médico, é um problema social. Porque a droga atinge o discernimento do cidadão. É um problema de saúde da sociedade", finaliza Corazza.

Postado por: TV Tribuna.com - 11/05/2009

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5º Episódio: Tratamento: um longo caminho

Assunto: Crack: o fim da linha

Tratamento: um longo caminho
O contato com a natureza ajuda a amenizar as lembranças ruins do vício.

"Eu peguei a bicicleta da minha esposa e vendi por 20 reais, quatro pedras de crack. Essa bicicleta era a que minha esposa levava meus filhos pra creche", conta um viciado que está em tratamento no Cactos, uma fazenda na área continental de São Vicente.

Há alguns anos, o álcool era a principal causa de internação. Mas hoje em dia, são os viciados em crack que lotam as comunidades terapêuticas especializadas em dependência química. Um público formado por pessoas que experimentaram e tiveram problemas sérios com outras drogas, mas que só resolveram pedir ajuda quando conheceram o crack.

No Cactos, que há vinte anos atua na reabilitação de dependentes químicos, oitenta por cento dos pacientes são ex-usuários da droga.

"A dificuldade de largar é maior, o índice de recaídas é maior e o índice de recorrências é maior também", explica o psiquiatra Omar Souto Pinheiro.

Por isso, é preciso literalmente suar para combater a vontade de fumar mais uma pedra. Transpirar faz parte do tratamento. Ajuda no processo de desintoxicação.

"Isso serve pra sair um pouco da química, aprender coisas novas no campo", diz um viciado em tratamento no Cactos.

"Pra mim tá sendo super favorável. Eu tô conseguindo me alimentar, tô conseguindo me adaptar", conta outro viciado.

A internação dura em média nove meses. Período de completo isolamento, em que o foco é preparar o ex-viciado para uma nova etapa da vida.

"Dá vontade de ir pra casa ficar com a família, mas se eu fizer isso eu vou ficar meia hora com a minha família e a vida toda com o crack", afirma um viciado em tratamento. "O desespero que bate dentro do corpo às vezes chega a ser mais forte que sua própria consciência".

Manter a mente sã não é fácil. Requer disciplina. E expressar as conquistas ajuda quem acaba de largar a droga.

"Eu tô aqui há quatro dias. Acho que deve ser o período mais difícil de ficar. Espero que os outros dias sejam mais fáceis pra mim", diz um viciado.

A fé na reabilitação também é fundamental. A Associação Nossa Senhora de Guadalupe, uma comunidade terapêutica da Zona Noroeste, em Santos, fundamenta o tratamento no ensino religioso. Vinte pessoas são atendidas de graça. Tudo mantido com recursos da igreja católica Santa Margarida Maria. Em retribuição, os pacientes ajudam na reforma do templo e na confecção de imagens sacras, vendidas no bazar da paróquia. Wagner Alves já foi um deles. Livre do crack há nove anos, hoje se dedica à recuperação de usuários, como monitor da entidade.

"Eu não ajudo só eles, eu me ajudo também no meu tratamento, na minha conversão. A conversão do dependente químico tem que ser constante, todos os dias".

Postado por: TV Tribuna.com - 11/05/2009

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